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Entrevista com Yoshiyuki Tomino e Hideaki Anno Parte 2
terça-feira, 8 de outubro de 2019 às 1:17

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Sobre o Autor: EXIA

Fã desde 2011 Conheçeu Gundam atraves de revistas especializadas em animes, sendo o primeiro Gundam que assistiria seria Gundam SEED.



E ai pessoas, vamos com a última parte dessa grande entrevista com Yoshiyuki Tomino e Hideaki Anno, estão prontos? Sem mais enrolações vamos a parte final dela.

Lembrando que essa entrevista e a versão traduzida que foi trazida pelo blog do Wave motion canon, então vamos nessa!

O significado da última cena de Katejina

Anno: Essa é uma impressão pessoal, mas para mim, V Gundam é uma história sobre desenvolvimento e mulheres.

Tomino: Exato. Na verdade, muitas vezes percebi isso durante as previews de meus próprios filmes. Para as mulheres em particular, tenho a sensação de finalmente poder escrever personagens femininas.

Anno: Você quis dizer que foi um “finalmente”?!

Tomino: Sim, finalmente (risos). Eu acho que isso lhe dá uma ideia de como eu não era confiante. Nesse sentido, desta vez senti que não estava tão ruim quanto pensava – se estamos falando sobre a escrita em nível de anime, posso dizer que já sou capaz de lidar com isso, mas não é tão simples assim. Fiquei muito feliz em chegar ao ponto em que pensei ser capaz de representar a natureza de uma mulher.

Anno: O fato de que você não tinha confiança também significa que isso era importante para você.

Tomino: Exatamente. Eu percebi isso quando assisti o primeiro episódio, já finalizado, pela primeira vez. Eu podia ver os sentimentos contundentes de uma mulher. A percepção me veio duas ou três vezes durante o episódio, de que eu poderia escrever mulheres um pouco mais.

Anno: É o primeiro Gundam começando da Terra e retornando à Terra.

Tomino: Eu realmente não pensei muito sobre esse ponto, mas quando tive que refletir sobre como compensar as ações de Katejina, decidi fazê-lo. É claro que se você me perguntar se foi ou não a escolha certa, não acho que tenha sido 100% perfeita, e considerando o fato de ser um anime de mecha, existia também uma parte de mim que não queria que fosse tão sombrio. Mas eu queria fazer este cenário pelo menos uma vez (risos).

Anno: Comparado às personagens femininas, não existe nenhum personagem masculino realmente bom em V Gundam, existe? (risos)

Tomino: Como eu disse, desta vez eu me concentrei tanto em escrever mulheres que quase não tinha interesse em homens.

Anno: Pareceu mesmo. É a primeira vez que você se apega tanto a uma coisa, certo?

Tomino: Acabei de perceber, falando sobre isso, mas todo o meu interesse por homens foi sugado para a representação do Uso, de 13 anos. Eu não conseguia me distrair com os outros. É muito difícil para um homem da minha idade escrever um garoto da idade dele seriamente, então eu não consegui lidar com outros personagens masculinos nesse meio tempo.

Anno: Você conseguiu lidar com alguns personagens mais velhos, mas os mais jovens não foram convincentes.

Tomino: Tais pessoas eram da minha geração, eu só tinha que me transpor para elas, para não precisar pensar em nada ao fazê-las. É o que você chamaria de homens no auge da vida que me causaram problemas.

Anno: Cronicle é um reflexo direto dos jovens hoje?

Tomino: Não, não é. Eu queria fazer dele um antagonista de anime mecha adequado, mas ele se tornou completamente transparente depois que Wattary Gilla apareceu. Um personagem como Wattary não deve ser um fim em si, mas apenas um meio de se conectar ao arco de Cronicle. Naquela época, também havia partes no personagem de Uso que permaneciam vagas, então chegamos aos episódios 12 e 13 enquanto ainda estávamos focados nele, deixando completamente Cronicle para trás.

Anno: Pippinigen também foi desnecessário. Os personagens que deveriam estar centrados em Cronicle se espalharam demais e nenhum personagem masculino jovem se destacou. Eu tinha esperança em Cronicle, então fiquei decepcionado com o resultado. Mas eu também pensei que o que aconteceu com Katejina era devido a Cronicle ser do jeito que era.

Tomino: Isso não é verdade. A última cena de Katejina foi planejada desde o início. Eu disse à equipe antes do primeiro episódio ser exibido, esclarecendo que poderia ser cancelado. Mas, aparentemente, eles gostaram muito desse clímax, apesar de eu pensar que poderia parecer muito com um filme… Então isto permaneceu na mente de todos, e pelo que ouvi, há um sentimento compartilhado de que o subdesenvolvimento de Cronicle foi aprovado por padrão por causa disso.

Anno: Ele foi sacrificado pela última cena de Katejina.

Tomino: Então, logo após o início da segunda parte, quando tivemos que decidir como concluir a história, eu disse: “Bem, a única coisa que podemos fazer é torná-la cega”. Algo que todos simplesmente concordaram em dizer que era a única solução que pudemos encontrar.

Anno: Pessoalmente, eu realmente não entendo por que ela ficou cega…

Tomino: Eu acho que é porque não consegui representar o relacionamento entre ela e Cronicle corretamente. Se eu pudesse descrevê-lo, acho que a razão pela qual tal relação foi possível, teria sido mais clara. Mas no fim, como não pude fazê-lo, não é mais relevante falar disso. A única coisa que posso dizer é que Katejina não queria matar, não importa o quanto. Então, para destacar esse conflito, do ponto de vista da dramaturgia, ela teve que ser punida por não conseguir matar.

Anno: Qual punição?

Tomino: Uma punição capaz de fazer Uso de Kasarelia vencer, já que eles se tornaram inimigos, mesmo que fosse de mentira. Ela também lutava, e eu a conheço como o autor que criou essa situação desconfortável, onde não pude simplesmente dizer “morra, por favor”. É por isso que não vou matá-la. Mas ela escolheu se juntar ao lado do inimigo, então me desculpe, mas devo sim aplicar alguma punição. Vou pelo menos enfeitá-la de maneira teatral, então, por favor, reconheça que foi isso que quis fazer.

Anno: Hmm, ainda não tenho muita certeza disso.

Tomino: Por favor, me mostre então.

Anno: Não achei relevante cegá-la. Fazer isso toma o foco principal desse clímax. Se ela sobrevivesse, poderia ter perdido um braço ou uma perna…

Tomino: Estas opções violavam códigos da TV, então nós descartamos. Além disso, foi por esse motivo que nos limitamos a sugerir que ela talvez não enxergasse mais. E ainda, o lado de Uso também merecia punição, por isso não seria surpreendente se ele perdesse um braço ou algo do tipo. Muito embora, nesse caso, eu queria criar imagens mais artísticas neste momento, mas elas não seriam aprovadas. Haviam outras ideias para isso, mas todas elas teriam afastado instintivamente a audiência.

Anno: Seria perturbador para eles.

Tomino: Era bem isso que eu queria. Se eu tivesse punido os dois, ela perdendo a visão não teria ficado deslocado como você me descreveu...

Anno: Ficou parecendo forçado.

Tomino:… E você poderia ter aceitado mais facilmente. Eu imaginei que fazê-lo com qualquer um deles me traria problemas, e que eu não seria capaz de lidar com esse tipo de cena corretamente, então me foquei na Katejina.

Anno: No romance, Katejina se queima. Eu prefiro assim.

Tomino: Gostaria de ter feito isso, mas é completamente tabu na TV. Além disso, quando refletimos sobre o quanto desse tipo de cena é aceita por este público que prefere coisas mais leves…

Animage: Você quer dizer que há um problema com a tolerância do público em relação a esse tipo de representação, muito antes de pensar em tabus na mídia?

Tomino: Esse é exatamente o problema. Nesse sentido, é totalmente verdade que nos comprometemos demais.

Anno: Foi o que pensei.

Não deixar que as crianças caiam em comportamento compensatório

Tomino: Ontem eu aleatoriamente cruzei com Records of the Lodoss War, acho que esse é o nome, certo? Eu o assisti. Do ponto de vista técnico, pensei: “Uau, Rintaro-san é muito bom”. Mesmo o processo após sua direção me parecia bom. Mas como criador, quando eu lido com aquele tipo de trabalho, não faria nada além de rejeitá-lo instantaneamente, em sua totalidade. O que você acha disso?

Animage: Os desenhos parecem bons e foram um grande sucesso como produto.

Anno: Eu entendo muito bem que ele vende bem. Mas não acho divertido.

Animage: A mentalidade dos espectadores parecem estar do lado de apreciar um resultado seguro, e predeterminado.

Tomino: Claro, eles não gostariam de confrontar o que consideram mais grosseiro ou desconfortável em mídias como vídeo ou anime.

Anno: Como é um comportamento compensatório, é claro que eles não querem pagar para ver coisas repulsivas. Em V Gundam, por exemplo, muitas crianças pararam de assistir quando a mãe de Uso morreu, dizendo que não queriam assistir um anime desse tipo. Os espectadores reagem à morte das pessoas mais do que esperamos.

Tomino: Sem dúvida existem crianças assim.

Animage: Mas agora que a bolha terminou, há a crise econômica, e o clima está se tornando cada vez mais austero, acho que haverão mudanças de agora em diante.

Anno: Pelo contrário, acho que eles vão se fechar ainda mais.

Tomino: Hoje em dia, as crianças não têm energia para viver nesses tempos. Eu acho que as pessoas que realmente sofrem de autismo não seriam capazes de viver nesse ambiente. Mas estou no tipo de posição em que, mesmo que haja apenas escuridão sempre continuarei em frente, quero fazer o meu melhor até morrer. Pelo menos, quero mostrar que a vida não é tão ruim, mesmo quando não sabemos para que estamos vivendo.

Anno: Acho que as pessoas precisam de muita vontade de viver para continuar. Elas não continuarão vivendo a menos que sejam repetidamente lembradas disso. Se as religiões ensinam coisas óbvias, como “as pessoas precisam viver mesmo que estejam sofrendo”, provavelmente é porque elas precisam mesmo ser instruídas a perceberem isso.

Tomino: Absolutamente. Isso é o quanto o mundo é implacável. Nossa única mensagem é: esteja mais preparado. Mas para as crianças de hoje em dia, especialmente as do período entre a sexta até a nona série, talvez seja toda a sua vida escolar que lhes causem problemas. Eu acho que é por isso que eles não querem ver imagens tão deprimentes, incluindo o tipo de história em que poderiam viver. E outra coisa importante, é que existem crianças que realmente levam coisas tão pequenas quanto essas, muito a sério.

Anno: De fato.

Tomino: Recentemente, houve escassez de arroz de tempos em tempos, e é uma coisa muito boa na minha opinião. Isso permite que eles imaginem um pouco mais a sério um caso em que realmente não há mais comida. A vantagem para as pessoas que criam entretenimento é poder dizer “desculpe se é perturbador, mas estamos mostrando essas partes austeras no anime que você gosta também”, caso isso ajude daqui há uns 10 ou 20 anos (risos) .

Anno: De fato, devemos colocar um pouco de veneno em nossas obras (risos), principalmente para crianças.

Tomino: Tenho certeza disso.

Animage: Entendo, muito obrigado por hoje.

E ai pessoal? o que acharam desta entrevista? ate a proxima com mais conteudo sobre Gundam!

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