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Entrevista com Yoshikazu Yasuhiko para a Forbes
quarta-feira, 6 de abril de 2022 às 23:15

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Sobre o Autor: EXIA

Fã desde 2011 Conheçeu Gundam atraves de revistas especializadas em animes, sendo o primeiro Gundam que assistiria seria Gundam SEED.



E ai pessoal tudo bom com vocês? Depois de muito tempo sem um entrevista, hoje trago uma que é bem recente e com um nome que está no topo do mundo de Gundam ultimamente, estou falando do grande Yoshikazu Yasuhiko!

A sua ultima entrevista foi para a famosa revista Forbes, aonde grandes nomes relacionados a Gundam também já tiveram as suas entrevistas divulgadas no nosso site, como Tomino criador da serie original. Antes de mais nada essa e apenas uma parte da entrevista, aonde o mesmo comenta sobre as series Gundams em que ele participou da produção, e, caso queria ver a mesma na integra e só acessar o site da revista, que ficará ao final da postagem ok? Sem mais delongas, vamos a ela.

Antes de começar sua carreira em anime e mangá, Yasuhiko vivia na zona rural de Hokkaido, mas o mangá ainda era uma grande parte da sua vida naquela época.

“Eu nasci em uma área tipicamente rural em Hokkaido. Era muito frio lá. Minha família era de fazendeiros. Mesmo muito jovem, eu amava desenhar mangá. Porque eu vivia lá, era muito difícil conseguir qualquer tipo de informação do mundo lá fora, e ainda por cima minha família não era rica. Nós éramos bem pobres de fato. Isto significava que eu não conseguia ter os mais novos livros ou mangás, embora algumas pessoas bondosas costumavam me dar esse material. Então eu costumava ver tudo isso e desejar que eu pudesse desenhar assim. Assim foi a minha infância.

“Quando eu era criança, um dos meus mangás favoritos era Oda Nobunaga de Mitsuaki Suzuki, e provavelmente foi minha maior influência enquanto crescia. Era um mangá sobre história japonesa e era muito interessante, e eu tentei copiar isto quando eu era garoto. Eu acho que foi na época quando eu estava na terceira série do ensino fundamental.

“Meu sonho era me tornar mangaka antes de eu entrar no colegial, mas quando eu comecei no colegial eu percebi que não tinha nenhum talento de fato e desisti. Eu também comecei a pensar que talvez eu devesse me tornar um professor. Tendo isto em mente, eu fui para a universidade com este objetivo mas não consegui me formar. Então eu desisti da universidade e me mudei para Tóquio, sem nenhum plano. Eu não sabia o que fazer, nem tinha quaisquer tipos de sonhos ou aspirações. Porém, por pura coincidência, eu consegui um trabalho na Mushi Productions. Eu conhecia Osamu Tezuka, claro, mas eu não escolhi a Mushi Pro porque era a empresa do Tezuka, foi apenas uma grande coincidência.

Acima, imagens raras do antigo Mushi Pro, da época do grande Osamu Tezuka.

“Após eu entrar na Mushi Pro, eu me tornei animador estagiário e comecei a trabalhar em animação. Porém, três anos depois, a Mushi Productions faliu e eu virei freelancer. A partir daí, trabalhei cerca de vinte anos em animação.

“Depois de uns dez anos após eu ter virado freelancer, eu vim a trabalhar como animador no primeiro Mobile Suit Gundam, que acabou virando um grande sucesso e então a Tokuma, que na época publicava revistas de animação, entrou em contato comigo e me perguntou se eu estava interessado em fazer mangás. Significava que eu era um animador e alguém que fazia mangá durante dez anos depois disto. No final deste período, decidi parar de trabalhar em animação e foquei somente em criar mangás.

Quando finalmente começamos a falar de Gundam, o fizemos de uma maneira bem holística. Como muito do que aconteceu no Mobile Suit Gundam original impactaria depois em obras como Gundam F91, Gundam Unicorn e eventualmente no mangá Gundam The Origin do Yasuhiko.

“Minha obra favorita daquele período trabalhando com animação é o Mobile Suit Gundam original. Foi algo de muito sucesso comercialmente quando foi lançado, mas depois disso nenhuma das minhas obras animadas fez sucesso comercial. Minha opinião sobre esse tipo de coisa é que se algo não faz sucesso na época do lançamento, então é um fracasso. Obviamente, eu fico feliz de ouvir que há novos fãs do meu trabalho mas eu sinto que algo não é realmente um sucesso a não ser que seja aceito pelo público em tempo real.

“Pouco antes do lançamento de Mobile Suit Gundam, havia uma outra série de sucesso chamada Space Battleship Yamato. Enquanto eu trabalhava nisso um pouco antes, Yamato abriu as portas a um novo tipo de fã. Então estes fãs novos vieram a assistir animes como Yamato ou Gundam, assim como outros fãs que gostam de animes tradicionais de robôs gigantes. Então com o Mobile Suit Gundam original, estes dois grupos se juntaram e isso foi muito bom.

Trabalhar em Gundam F91 foi um tanto complexo. Após o primeiro Mobile Suit Gundam, eu decidi que não queria estar envolvido em nenhuma das sequências. Então eu me distanciei intencionalmente. Porém, em Gundam F91 me pediram muito para me juntar à equipe e a outra razão foi que Gundam F91 era totalmente diferente dos Gundams anteriores. Nisto, Yoshiyuki Tomino tentou criar uma história completamente nova, separadamente daquelas feitas antes, como Zeta Gundam. Essa ênfase em fazer algo novo mudou minha ideia em trabalhar em Gundam.

“Durante o Mobile Suit Gundam original, minha relação com o Tomino era muito positiva e produtiva. Porém, após o sucesso da série, o Tomino se desligou de todos e agiu como se ele fosse a única pessoa responsável pelo sucesso dela. Então quase não havia mais comunicação entre eu e ele depois disso, o que dificultou muito em trabalhar em Gundam. Afinal, se você tem de trabalhar em grupo, precisa haver comunicação. Isto mudou em Gundam F91, pois a comunicação foi reaberta. Porém, eu só trabalhei no character design para o Gundam F91, pois me aposentei de animações na época.

“Sobre os livros de Unicorn Gundam, o autor Harutoshi Fukui é alguém que eu considero muito. Apesar de ser muito jovem, ele escreve com uma perspectiva afiada sobre situações sociais. Eu soube que Fukui escreveria novos livros de Gundam e como eu gostava muito das obras dele, perguntei se ele queria minha ajuda. Porém, como na época eu trabalhava no mangá Gundam The Origin, eu pensei que apenas conseguiria trabalhar em coisas como artes de capa e character designs, ou outros tipos de arte. Assim sendo, eu deixei claro à Kadokawa e à Sunrise que eu não poderia estar muito envolvido no projeto do Gundam Unicorn mas ainda poderia ajudar o Fukui. 

“Gundam The Origin começou com a Sunrise querendo trazer Gundam para um público internacional, especialmente nos EUA. Porém, o problema era que a animação da série de TV e dos filmes Mobile Suit Gundam original era muito velha. Eles sentiram que apenas lançar tudo isso como estava não funcionaria. Em adição, histórias em quadrinhos são populares em lugares como os EUA, então um mangá novo poderia ser uma ponte. Minha reação inicial ao pedido de fazer um mangá reboot de Mobile Suit Gundam foi bem desconfortável. A Sunrise estava muito interessada nesta ideia, então eles repetidamente vinham falar comigo sobre isto. Eu disse a eles que não me importava em levar Gundam aos EUA nem com o dinheiro que ofereciam pra isso. Ao mesmo tempo, eu senti um grau de responsabilidade neste projeto, já que fui um membro da equipe original de Gundam. Neste sentido, eu me senti responsável que não tínhamos conseguido fazer um anime que pudesse durar uns 40 anos. Obviamente, eu não trabalhava mais com animação, mas eu ainda fazia mangá. Eu pensei que se fosse feito um mangá, demoraria muito tempo para ser feito. Então eu falei com o presidente da Sunrise e disse que se eu fizesse um mangá do Mobile Suit Gundam original, demoraria pelo menos uns 3 anos. Me disseram que isso era tempo demais. No final, me levou 10 anos para fazê-lo. O mangá de Gundam The Origin também foi um sucesso comercial, então eu fiquei feliz com isso.

“Todos sabíamos na época que quando fizemos Mobile Suit Gundam, que alguns elementos da história não eram exatamente os melhores que poderiam ter sido. Eu também achei que eu não precisaria ter de seguir a história original tão fielmente. Eu estava lá quando fizemos isso, eu sabia como fizemos isso com um cronograma tão apertado e maluco e recursos muito limitados. Haviam muitas coisas anormais e ilógicas que acabaram entrando no anime. Também havia o argumento que se fosse pra eu refazer Gundam, eu deveria refazê-lo respeitando cada pequeno aspecto da obra. Pessoalmente, eu acho que isso é errado. Quando eventualmente eu aceitei fazer Gundam The Origin, eu falei com o presidente da Sunrise e garanti a condição de que se eu achasse que um elemento do anime original estivesse errado ou fosse ilógico, eu poderia arrumar ou mudar isso por minha própria vontade. Alguns fãs acham que eu deveria ter respeitado a história original do Tomino e esboçado mais, mas eu achei que até o Tomino se arrependeu de alguns elementos do anime original.

“A respeito do primeiro episódio de Mobile Suit Gundam, eu acho que é um ótimo episódio. Em apenas 20 minutos há história suficiente para fazer tudo andar. Eu também acho que esta é uma das obras-primas dos roteiros do Tomino. Ao mesmo tempo, dura apenas 20 minutos e a falta de explicações é aparente. Por isso que no início de Gundam The Origin eu adicionei mais volume e explicações sobre o que está acontecendo e como. Em contexto, isto foi uma mudança bem pequena, mais pra frente, eu fiz mudanças maiores. Provavelmente a mudança mais controversa em Gundam The Origin foi como eu interpretei o significado dos Newtypes. Sobre isso, no anime original, o conceito de Newtypes aparece de repente perto do fim da série, sem muita explicação do que eles são e o que podem fazer. Então eu adicionei mais sobre o que eu achava que Newtypes significavam para a raça humana e organizei isto diferentemente na história.

“Eu também adicionei uma parte nova em Gundam The Origin, que foi o passado de Char e Sayla. Então, 6 volumes de 23 são sobre isto. Esta parte foi completamente original e feita por mim. Então, quando o mangá se tornou muito popular, a Sunrise começou a pensar sobre uma possível adaptação em anime mas também estavam muito relutantes em reanimar conteúdo do Mobile Suit Gundam original sem o envolvimento do Tomino. Ao invés disso, o ponto mais seguro para a Sunrise foi animar a parte nova que adicionei ao mangá, pois isso não envolvia o Tomino de forma alguma e também não desrespeitaria a obra dele.

“Enquanto que eu havia me aposentado da área de animação naquela época para trabalhar com mangá, eu também achei que se meu mangá fosse adaptado em animação, então eu queria fazer isso. Então este foi o motivo que aceitei a oferta da Sunrise de cuidar da animação de Gundam The Origin.

“Porém, se o Tomino subitamente dissesse que ele queria reanimar o Mobile Suit Gundam original, então ninguém poderia pará-lo. A presença dele é enorme quando trata-se de qualquer coisa relacionada a Gundam. Assim sendo, se esse remake fosse acontecer, seria feito pelo Tomino dos dias de hoje. Seria bem diferente em termos de atmosfera comparado ao original. Então eu não estou muito disposto em ver algo assim acontecer. Assim sendo, Tomino é velho como eu, então duvido que ele gostaria de fazer isso.

“No que se trata do episódio Cucuruz Doan’s Island do Mobile Suit Gundam, efetivamente isto foi uma side-story. Então, quando planos de filmes-resumo são feitos, episódios como este são os candidatos principais. Durante a produção do anime original, este episódio foi terceirizado para uma equipe totalmente diferente para dar à equipe principal mais tempo para focar na história principal. Significava que a qualidade da animação do episódio era ruim, mas ainda tinha uma história ótima. Significa que fui falar com o presidente da Sunrise e perguntei se eu poderia reanimar o episódio ele disse que não tinha problemas com isso.

O novo filme de Gundam dirigido por Yasuhiko terá a sua estreia ainda esse ano em Junho

Fomentando Jovens Talentos e Seu Respeito por Yoshiyuki Tomino

Tendo entrevistado muitas pessoas no Japão durante anos, um dos elementos recorrentes que me deparei é a consagração quase universal do Yasuhiko como criador e campeão de jovens talentos. Pessoas como Katsuhiro Otomo e Mamoru Nagano citam a ajuda de Yasuhiko como muito importante em suas carreiras. Eu compartilhei esta informação com o Yasuhiko, pois eu queria saber o porquê dele ter ajudado tantas pessoas ao longo dos anos.

“Honestamente, eu não acho que eu realmente ajudei alguém ou ensinei algo útil. Ao invés disso, na verdade eu fui ajudado por todos estes jovens incrivelmente talentosos. Como um criador de mangás, eu faço tudo sozinho. Não tenho um assistente. É a mesma coisa com animação, pois também não tenho aprendizes. Então o fato de todas estas pessoas fazerem questão de me agradecer em suas entrevistas anteriores é definitivamente surpreendente. De qualquer maneira, voltando a quando eu fazia animação, eu achei que precisávamos contratar e fomentar novos talentos. Com isto em mente, eu convenci pessoas na Sunrise que deveríamos contratar pessoas jovens e talentosas. Uma destas pessoas é Kumiko Takahashi, que foi diretora-chefe de animação no Gundam Unicorn. Pode-se dizer que ela é uma espécie de aprendiz, mas, mesmo assim, eu acho que pessoas como ela são raras. Também por isso que eu vi Gundam Unicorn, pois esta foi a obra dela. Como eu disse, estou surpreso que pessoas como Mamoru Nagano e Katsuhiro Otomo mencionem a mim desta forma. Ao contrário, quando estes caras estavam começando, eu pensei que eram tão incríveis que eu deveria desistir da área de animação. Que eu não era mais necessário. Então é muita bondade deles pensarem em mim desta forma.

“É interessante ouvir o que pessoas de fora do Japão pensam das minhas obras antigas, também. Pois quando eu olho para elas, eu vejo muitos problemas e erros. Devido ao cronograma apertado e à quantidade limitada de pessoas. Então quando eu vejo um ponto ruim, é difícil ver o resto. A esse respeito, eu acho que os fãs internacionais são muito generosos com minhas obras antigas.

“Eu acho que isto é algo que novas pessoas no ramo da animação devem considerar. Devem entender como as obras deles são apreciadas internacionalmente. Pode ser difícil para eles entenderem o que ressoa com audiências globais. Sem mencionar que muitas produções japonesas terceirizam muitos trabalhos para a China ou a Coréia, o que significa que esses países agora têm o know-how de como fazer anime. A esse respeito, agora as pessoas jovens trabalhando em entretenimento precisam pensar sobre o que faz suas obras únicas. Enquanto eles podem ouvir boas notícias sobre suas obras de audiências internacionais, eles podem se enganar com isso achando que são algum tipo de grande criador. Eu acho isto pode ser muito perigoso. Não temos uma receita secreta especial, então isto pode ser roubado muito facilmente.

“Quanto ao Tomino, ele é um grande criador e único, mas ele não se comunica claramente ou tem consistência lógica. Isto significa que as histórias ou explicações dele são difíceis de acompanhar. Respeitá-lo como grande criador é uma coisa, mas lidar com o carisma dele é algo inteiramente diferente. Eu acho que olhar apenas pro carisma do Tomino é a coisa errada a ser feita. Ele é incompreendido muito facilmente e muitas vezes citado erroneamente, o que faz a coisa ficar fora de controle. Focar no carisma dele, então, é perigoso e errôneo. O aspecto ao todo do Mobile Suit Gundam original ser intocável sem o Tomino é parte desta veneração do carisma dele. Às vezes as pessoas pensam que eu menosprezo o Tomino, ou até mesmo que eu o odeio. Isto não é verdade. Eu acho que sou eu quem mais respeita o talento do Tomino entre todos. Por contraste, eu sinto que sou muito fácil de ser compreendido, mas eu acho que isto é provavelmente um indicativo de mim mesmo não ser um criador tão grande assim.”

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